Sweet Ice Cream.
O nome da sorveteria era Sweet Ice Cream.
Que decepção, não?
Em todos os meus anos de vida que já foram e em todos os que virão sei que nunca vou concordar em nomear algo neste gigante da língua de Camões em inglês, quase o malvado favorito de nossas vidas. Qual era o problema de nomear aquele lindo lugar simplesmente de Doce Sorvete? Seria mais objetivo e gentil com os milhares de brasileiros que não possuíam o básico de inglês e estivessem sedentos por um sorvete. Nesse caso nem as vitrines ajudavam mesmo que fossem transparentes pois deixavam transparecer apenas as mesas rodeadas por pessoas enquanto os sorvetes nas taças eram apenas incógnitas. Um desavisado poderia pensar que aquilo era uma verdadeira Suíte estrangeira e abanar a cabeça para o desconhecido, declarando-o esquisito.
Bem, mesmo com a minha angústia inicial com aquele letreiro cor pasta de dente entrei, pois realmente estava desesperado por sorvete. O ambiente era lindo: bem iluminado e com várias mesas de cobertura rosa e branca e cadeiras de madeira aparentemente maciça enquanto um buquê de flores bem cuidadas a olhos destreinados decorava cada uma como em um grande restaurante.
Seria então aquele letreiro anglófono um ar de requinte desnecessário?
Provavelmente não. Requinte rima com francês na minha clara opinião.
Observando o local por alguns minutos acabei entendendo como funcionava: garçonetes ou garçons simplesmente não existiam e se estivessem em algum lugar seria atrás do balcão que prometia mais de cem sabores diferentes de sorvete conforme enunciava uma plaquinha em português (pelo menos isso) no começo da fila que se formava perto dele e essa promessa provavelmente fora cumprida com sucesso; o balcão ocupava o mesmo comprimento que a parede da loja.
Talvez fosse uma clara apologia ao exagero dos yankees à mesa.
Mas então deveria ter sido melhor escrever Sweet Overkill e ser direto com quem não entendesse a indireta.
Balancei a cabeça e entrei na fila, imaginando se ficaria ou não debatendo aquela questão ridícula por tanto tempo assim. Mas provavelmente eu ficaria. Quando criança tinha o hábito de contar as formigas que andavam em fila na janela de meu quarto ao invés de ter amigos e ser feliz e por isso hoje em dia não passava de alguém com mais de vinte anos infeliz e que trabalhava num escritório fechado de maleta e olhos cansados.
Malditas formigas, pensando bem.
Para ter o que fazer fixei meu olhar no vidro do balcão como todo o resto das pessoas na minha frente e ás minhas costas, tentando descobrir o que escolher. Não era tão difícil para que eu fizesse uma escolha - bati o olho naquilo e decidi arriscar e pedir um de menta e licor - mas era legal me igualar a massa de despreocupados com um letreiro de sorveteria aparentemente chique. Depois de uns minutos questionei minha escolha. Lá tinha menta com chocolate também, e menta com hortelã, e menta com canela, e menta com café (horrível, não recomendo) e menta com pimenta, talvez uma combinação feita mais por brincadeira linguística do que por gosto saboravel.
Acabei me decidindo por um simples sundae chocolate e chantilly, de longe o máximo que eu me permitiria arriscar na minha vida pacata. E que riscos! O leite do chantilly poderia ter estado a um dia de vencer, veja só, e poderia não ter sido batido adequadamente, ficando naquela consistência de quase chantilly, um maldito chantilly falso que eles tentariam me vender por cinco pratas, estas que talvez tivesse um destino melhor em cinco bases do Bom Prato.
Admito que se a alguém pudesse ler minha mente eu estaria pagando um mico terrível.
- Bem vindo ao Sweet Ice Cream, o que deseja? - Perguntou a amistosa atendente.
- A small chocolate sundae with chantilly, please.
A moça sorriu, talvez pensando que eu fosse louco ou inglês ou repudiando minha pronuncia errada. Ou talvez não entendendo nada já que pediu para que eu apontasse para um bonito cardápio.
- Desculpe, um sundae de chocolate com chantilly, por favor. Sabe, eu pensei em combinar com o nome do local e tal...
- Um nome é só um nome. - A moça avisou, dessa vez com um sorriso meio sincero. - Nosso chefe é meio louco, mas todo mundo consegue entender que isso é uma sorveteria.
- Mas e todas as barreiras linguísticas e gráficas...
- Você fala espanhol?
- Não. - Pisquei, surpreso. Não me pareceu uma pergunta sensata - Por que você...
- Su helado, señor. Cinco reales.
- Ah, certo. - Suspirei triste por ser cortado e retirei da minha carteira uma nota dobrada do valor que ela pediu. - Obrigada.
Peguei meu sorvete e saí da fila, remexendo o chantilly com a colher. Parecia consistente...
- Ei, espera! - Gritei, girando nos calcanhares como nos filmes. - Isso foi espanhol?
Algumas pessoas me olharam certamente assustadas, mas a atendente acenou com a mão.
- E isso foi um exemplo de barreira linguística quebrada, meus senhores. - Ouvi ela anunciando. Me virei com vergonha, fingindo que não era comigo, mesmo que tivesse gritado.
Saí da Sweet meio desanimado, sentindo todo o tempo que passei pensando naquele letreiro uma perda irreparável de segundos.
Bem, culpa daquelas formigas, acho.